Retrospectiva Motox: de Pastrana à Pastrana

A décima sexta edição dos X Games chegou ao seu fim. Durante quatro dias acompanhamos no Moto X momentos de redenção, inovação, consolidação, renovação, e claro, muita emoção. Todo esse espectro de sensações acompanhado por um impressionante frenesi do público. Em minha estréia como comentarista do evento pela ESPN pude sentir, em tempo real, o quanto os brasileiros gostam e se interessam pelos X Games. Certamente, é o momento de maior atenção dos esportes de ação no País.

Rememorando os últimos dias, fica impossível escolher uma única prova, manobra ou medalha para refletir perfeitamente o Moto X. Assim, nada mais justo do que selecionar diferentes momentos que marcaram os X Games, e o FMX de modo geral. E para começar, Travis Pastrana.

 Pódio do Motox Freestyle. Com a bandeira da austrália, Levi Sherwood; no meio Travis Pastrana e à direita Nate Adams. Crédito da imagem: Tony Donaldson/Shazamm/ESPN Images

Apesar de muito tempo na ativa, Pastrana aposentou-se prematuramente das competições de Freestyle. Hoje, com 26 anos, primordialmente alterna seu tempo entre atividades insanas com a gangue Nitro Circus e as provas de Rally. Contudo, a mesma pergunta frequentemente vinha à tona: E se ele voltasse às competições? Particularmente, confesso que tinha minhas dúvidas quanto aos seus resultados. Desde sua última participação no Freestyle, em 2006, o cenário mudou bastante. Por exemplo, naquela época, quem imaginaria que um garoto de 18 anos da Nova Zelândia rivalizaria com o melhor de todos os tempos. De fato, a disputa particular entre Travis Pastrana e Levi Sherwood deu o tom. Características diferentes colocadas num mesmo jogo. Pastrana fluindo de maneira energética, preenchendo todo traçado com manobras, que fundem exímio domínio sobre a moto com uma visão peculiar do ambiente de pista.

Amostras dessa capacidade singular vieram num backflip executado num salto mínimo, e nos voos no wall ride, aparentemente, sem o menor vestígio de esforço. O auge de sua participação ficou por conta do double backflip, absolutamente dominado. Em suma, Pastrana soube como concentrar seu leque de habilidades para um objetivo comum: o ouro.
Travis Pastrana esquentando os motores antes de mandar o double back flip.
Crédito da imagem: Dom Cooley/Shazzamm/ESPN Images

Travis Pastrana utilizou todos os obstáculos da pista, inclusive o wall ride.
Crédito da Imagem: Dom Cooley/Shazzamm/ESPN Images

Sherwood é um piloto agraciado com uma aptidão natural, uma flexibilidade extrema, que lhe permite executar alguns dos movimentos mais empolgantes do FMX ultimamente. Ao mesmo tempo em que estende um backflip tsunami ao limite, consegue, à sua maneira, modernizar movimentos mais antigos, como supercan. Outro diferencial são as manobras direcionadas à frente da moto, especialmente nos flips, como flip shaolin. Nesse sentido, inovou apresentando um flip deadbody.
Levi Sherwood mostrando porque é "um piloto agraciado"
  Crédito da imagem: C.Van Hanja/Shazamm/ESPN Images

O Best Trick fez jus ao seu nome de “Melhor Manobra”, fugindo do caráter excessivamente experimental. Absolutamente todas as manobras pousadas podem compor uma rotina no Freestyle. Algo acentuado pelo perfil dos competidores, em sua maioria, pilotos ativos no circuito internacional. O principal atrativo foram os body varials, mostrados por Robbie Maddison e Clinton Moore. Ambos seguiram a linha do volt, incrementando o giro com algumas novidades. No caso de Maddison, um fabuloso side saddle, isto é, pouso na posição do cancan clássico, e Moore um sutil seat grab, mas pecando um pouco na aterrissagem.

O ouro ficou com Cameron Sinclair, com o double backflip. Considerando a quantidade de energia centrípeta envolvida nas duas rotações, suavidade e double backflip são dois termos que dificilmente podem coexistir. Mas Sinclair desenvolveu seus giros com perfeição, pousando precisamente. E quase um ano depois de seu acidente no Red Bull X-Fighters de Madri, quando esta mesma manobra quase lhe tirou a vida, agora lhe concede a maior conquista dela. Redenção para Sinclair.
 
                                              Cam Sinclair comemorando sua redenção.
                                    Crédito da imagem: C.Van Hanja/Shazzamm/ESPN Images
 
A quantidade de pilotos, manobras e situações durante os X Games é bastante numerosa. Então, puxando pela minha memória, veja o que surgiu no meu radar.

Jarryd McNeill
- Quando o nome apareceu na lista de convidados para o Best Whip, muitos se perguntaram: “Quem é esse cara?” McNeill respondeu se lançando com apenas uma das mãos no guidão para whips absurdamente inclinados.
Além das entortadas, o garoto australiano de 19 anos possui um bom repertório de manobras. Apesar de jovem, teve boas participações no (infelizmente) extinto Campeonato Austrália & Asia de FMX. Um de seus pontos fortes é o contorcionismo em determinadas manobras, como nine o-clock nac. Seu desafio? Dominar o flip em todas as condições. Um novo nome na cena juntamente com Adelberg, Strong e companhia australiana? Acredito que dentro de certo tempo, sim.

Rich Kearns - Oriundo a Costa Leste, do Estado de Coneticute, Rich Kearns alcançou sua notoriedade através de um meio cada vez mais comum para os aspirantes a medalhistas: a internet. Combinou o “paris hilton” ao backflip. Infeliz nome da manobra à parte, o resultado final da combinação se mostrou interessante. Kearns tem uma carreira mais consistente que outros membros do “clube da internet”. Agora, com um sexto lugar nos X Games e morando na Califórnia, tem maiores chances de conquistar seu espaço.

Rich Kearns
Rich Kearns vindo da internet e brilhando na "vida real"
Crédito da imagem: Mtt Morning/Shazamm/ESPN Images
 
Clinton Moore - Acredito que este seja o nome que veremos crescendo em breve. As habilidades de Moore vão além do body varial. Conquistou o terceiro lugar no Campeonato Australiano de FMX em 2009, atrás de Rob Adelberg e Josh Sheehan. Na ocasião, a primeira posição lhe escapou por pequenas falhas, especialmente durante os pousos. Possui um repertório de manobras diversificado, incluindo 360 nac e flip ruler. Passou perto de conquistar a vaga para o evento principal na Disputa dos Estreantes no Red Bull X-Fighters de Madri. Ficou de fora por detalhes em sua rotina. Um pouco de tempo apenas é o que ele precisa.

Clinton Moore
Clinton Moore trilhando os primeiros passos
Crédito da imagem: C.Van Hanja/Shazamm/ESPN Images
 
Nate Adams - Demonstrou em seu backflip one hand take off como utilizar apenas uma das mãos adequadamente. Atualmente, alguns pilotos sofrem do que chamo de “Síndrome do One Hand”, procurando pousar, todo o tempo, com apenas uma das mãos no guidão. Nate mostrou como se faz, adicionando algo teoricamente simples, uma tirada de mão, a uma rotação, resultando numa combinação tecnicamente complexa e, principalmente, contextualizada.

Voltando a Pastrana


Além do Freestyle, Pastrana levou mais um ouro no Moto X, no Speed & Style, conquista até então inédita em seu glorioso currículo. A prova que une velocidade às manobras se mostrou como o ambiente ideal para o piloto colecionador de títulos. Após uma série de disputas épicas, tais como Pastrana versus Metzger, e Deegan contra Stenberg, o duelo decisivo foi protagonizado por Travis Pastrana e Nate Adams. A inclinação de Adams pelas corridas, e suas incursões cada vez mais assíduas neste mundo, o colocavam em boas condições no confronto. Este ano quase avançou para o evento principal na etapa de Anaheim do AMA Supercross. Mas Pastrana mostrou na pista que existe uma diferença significativa entre os retrospectos de “quase avançar” e “ser campeão”. Conforme previsto pelo próprio, foi superado por Adams nas manobras, que pousou inclusive seu 360, mas reverteu essa vantagem no relógio.

Em termos de provas, o Speed & Style encabeçou a lista das mais emocionantes. Conceitualmente, se mostra com uma das maneiras mais eficientes para se aferir a abrangência da capacidade de um piloto sobre a moto, justamente por conciliar condições distintas dentro de um mesmo segmento. Depois de uma seção de velocidade, na qual o piloto busca voltar ao solo o mais rápido possível a fim de retomar a aceleração, vem os saltos de Freestyle, que demandam um bom aproveitamento do tempo no ar para o desenvolvimento ideal das manobras. Mudanças quase imediatas, que colocam a rapidez na adaptação como outro elemento chave para o sucesso. Nesta edição em especial, a organização acertou em cheio no formato. A prova ganhou nova identidade, com um traçado de dimensões reduzidas, próximas às de um Arenacross. Elementos como uma rampa de descida após a largada, e curvas inclinadas sobre uma plataforma com menor aderência, tornaram o circuito ainda mais seletivo. Somado a isso, a própria dinâmica da prova, com apenas quatro voltas, obrigava os pilotos a equilibrarem as duas situações, velocidade e manobras.

Travis Pastrana
Travis Pastrana acelerando na pista de velocidade do Speed & Style, mas com muito estilo.
Crédito da imagem: Chistian Pondella/Shazzamm/ESPN Images

Travis Pastrana
Travis Pastrana, agora, aplica o estilo.
Crédito da imagem: Chistian Pondella/Shazzamm/ESPN Images
 
Twitch & Faisst - O espetáculo à parte protagonizado pelos dois foi o momento mais inusitado dos X Games que já acompanhei. Bom, duas lições aprendidas: corrida só acaba quando termina, e as motos de cross, pelo menos as do Twitch, são mais resistentes do que eu imaginava.
Final do Speed & Style. Da esquerda para a direita: Ronnie Faisst, Brian Deegan e Jeremy Stenberg
Final do Speed & Style. Da esquerda para a direita: Ronnie Faisst, Brian Deegan e Jeremy Stenberg. Crédito da imagem: C.Van Hanja/Shazamm/ESPN Images
 

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